WALTER TAVERNA

Bixiga se escreve com W

Nos 452 anos de São Paulo, seo Walter traduz o reduto e o espírito mais emblemáticos da capital
por Mônica Manir

Teve dia, lá no começo, que esperaram o Parabéns pra Você. No quinto ano, só deu tempo do Parabéns. No sétimo, o ataque se antecipou uns par de minuto. No nono, a multidão atropelou as mesas quase duas horas antes para abocanhar um pedaço do aniversário. Outro 25 de janeiro e o pároco chamado para abençoar o bolo fez que ia desenhar o sinal da cruz na testa. Não chegou nem ao nome do Pai. Neste ano de 2006, um motoqueiro desavisado acionou uma sirene, e o povão entendeu o que quis: em 4 segundos devorou 8 toneladas do doce em homenagem aos 452 anos de São Paulo.

Mesmo depois de 20 anos nos bastidores do Bolo do Bixiga, “seo” Walter foi pego de calça curta. Estava fazendo as honras da rua ao Rei Momo quando percebeu os fotógrafos se engalfinhando para flagrar mais de 4 mil pessoas borradas de marshmallow. Gargalhou gostoso, porque festa sua é assim: uma coisa de louco. “Coloco na rua e não quero saber o que vai acontecer.” Presidente e fundador uno da Sociedade de Defesa das Tradições e Progresso da Bela Vista, Walter Taverna é um promotér com sotaque bixiguês. Seu negócio é organizar eventos para promover o bairro, que nos ofícios bairro não é. O Bixiga constitui parte do distrito da Bela Vista, na região central da cidade, e se prolonga da Avenida 9 de Julho à Brigadeiro Luís Antônio e da Rua Maria Paula à Cardeal Leme, com umas esparramadas mais pra frente ou mais pra trás. Se for para se apegar às letras, emprega-se Bexiga, desse jeito. Seo Walter é autor do hino Bixiga, Amore Mio. Então, como o povo, também pinga um i no começo.
A idéia de fazer um bolo em homenagem a São Paulo fermentou primeiro na cabeça de Armandinho Puglisi, amigo de infância, farra e algumas jogatinas do seo Walter. Personagem emblemático do lugar, Armandinho não queria qualquer porcaria, mas bater um recorde. Bolaram placas de farinha açucarada molhada em ovos e leite, mais de 30 toneladas da mistura. Servida sobre 1,5 quilômetro de mesa na Rua Rui Barbosa, ela entrou para o Guinness como o maior bolo de aniversário do mundo. Na dificuldade de manter a quilometragem ano após ano, mudaram o rumo da proposta: o bolo teria o tamanho da quantidade de velas apagadas pela cidade. 452 anos? 452 metros.
Com a morte de Armandinho, em 1994, seo Walter carregou o piano da iniciativa, mas já levava nas costas outras propostas para conservar as tradições do bairro mais emblemático da capital – os varal do Bixiga, por exemplo. Foi em dezembro de 1983 que ele pegou umas 2 mil, 3 mil roupas, algumas da comunidade, outras de brechó, e espalhou pelas ruas sobre fios de náilon. Queria homenagear as famílias, “porque todo mundo que vê um varal lembra da mãe, do pai, do filho”. Os quatro meses de trabalho foram Prefeitura abaixo. Na surdina, caminhões públicos carregaram o vestuário. De birra, seo Walter pegou um varal de 11 metros que tinha sobrado e foi pendurando saia após calça até chegar um mendigo. O homem queria comida, tinha uma fome tremenda. Dono de restaurante, seo Walter mandou fazer um marmitex. De curioso, o mendigo perguntou para o que era o varal. Então tirou o único paletó e doou.
“Aquilo me estremeceu de uma forma que desci o varal, paralisei o trânsito, buzina de todo lado, costurei no meio da rua, não tava nem aí.” Isso eram 11 da manhã. Às 2 da tarde foi falar com o Mário Covas. Queria as roupas de volta. Covas o mandou para a Regional e dali uns dias funcionários da Prefeitura devolveram a decoração. Aquilo o envolveu de tal jeito que seo Walter virou Adoniran. Na noite da vitória, fez o hino do bairro, mais a música do varal:

Quando você passa no Bixiga
Vai procurar saber daquelas
roupa pendurada pela rua
Que bacana
É tradição napolitana
De repente, a coisa mudou
A Prefeitura todo o varal retirou
Mas nessa hora falou
mais alto a voz do povo
Em menos de uma semana
o varal voltou de novo
Donzelas napolitana, após sua noite nupcial
Lavava suas roupas,
pendurava no varal
O varal está presente em
nossos corações
Eles fazem parte das ruas,
das favelas, das mansões
Eu vi uma coisa linda,
que só ela ela só
Um mendingo encantado
doou o seu paletó
E o varal que enfeitava as ruas com as suas roupas e trapos colorido
O luar e as estrelas
ficaram agradecido.

Em 1997 veio a iluminação de criar um pão gigante para as crianças. Uma padaria do bairro encampou a proposta e nasceu o baguetão de 560 metros de comprimento por 20 centímetros de largura, tradição de todo 12 de outubro, que ganha umas fatias de mortadela quando mais um patrocinador entra na história. No aniversário de 450 anos da cidade, outro megaevento: a maior pizza do mundo, que ele espera repetir neste ano agora, no 1º de maio, só que com modificações. Será retangular, a massa na espessura de 3 centímetros, uma ficazza, feito um pão. Na cobertura, aliche, tomate, azeitona… A mesa? O Minhocão. Tanto o pão quanto a pizza foram para o pessoal do Guinness e estão devidamente patenteados. Porque seo Walter quer um currículo em ordem, tudo nos trinques.

CONCURSO DE ANÕES

Para quem sempre pensou grande, um dia ele lembrou que existia gente pequena. Decidiu criar um concurso de anões. Problema era descobrir onde estavam. Botou anúncio em jornal e acabou conhecendo um, que espalhou o concurso à boca grande. Apareceram 45. Pagou condução e alimentação para todos, pois anão passa muita dificuldade, e fez rainha e rei em praça pública no dia 24 de junho de 2001. A mídia cobriu o evento e alguns hoje trabalham em restaurante, rádio, TV, teatro. O próximo passo é reivindicar o Dia do Anão. E o Dia do Sósia. Porque seo Walter também fez concurso para eleger o melhor. Ganhou o Chacrinha. O papa João Paulo tirou em segundo.
Projetos adiantados no papel, mas emperrados lá adiante, são o calçadão na Rua 13 de Maio e um hiperestacionamento para 678 carros embaixo da Praça Dom Orione. Ali ocorre a Feira do Bixiga, que ele organizou e manteve viva por 12 anos, até passar a administração para outro interessado. Não fosse a falta de tempo, ainda participa do conselho supremo da Sociedade Veteranos de 1932- MMDC, sem nunca ter pegado em arma na vida. Contam-se ainda o cargo de primeiro-ministro da República de Vila Mariana, associação para revitalizar o bairro onde mora, e a presidência de uma Sodepro na Praia Grande, onde não pisa desde 1992. Mas o fax funciona que é uma beleza. “A gente tá sempre prestando um servicinho para a sociedade.”

TRATAMENTO: TRABALHO

Dizem que seo Walter é meio xarope das idéia, mas ele só está cumprindo ordem médica. Depois de muitas rasteiras na vida, de andar feito bobo procurando a razão do mundo, ouviu o seguinte do doutor: você precisa de terapia ocupacional. Ou seja, trabalhar, trabalhar, trabalhar. “Mas era só o que eu fazia desde os 6 anos!” Neto de sicilianos, Walter Taverna nasceu num fundo de cocheira no que hoje é a Rua 13 de Maio, 703. A parteira da 704, em frente, também trouxe à luz os seis irmãos. Cozinheiro da primeira cantina do lugar (a Capuano), o pai, Carmelo, arrumou emprego para Waltinho como faxineiro do restaurante. Esperavam restos de comida no prato para alimentar a família. Mas dona Modesta, vítima de problemas emocionais, foi para o Juqueri e a família se dissolveu. Waltinho parou numa tia, que o expulsou de casa depois de uma vidraça quebrada por bola, e ele morou por seis meses nas escadarias do Bixiga até outra tia o acolher.
Com seo Paulino aprendeu o ofício de barbeiro e, aos 13 anos, cruzeiros emprestados, abriu uma portinha na Rui Barbosa. Novo golpe: o local foi desapropriado para ampliação da rua. Pegou a maleta, foi trabalhar em domicílio, até defunto barbeou para conseguir alugar uma casa onde juntou novamente os Tavernas. Anos depois, em 1958, uma tragédia: um acidente num táxi alugado matou pai, mãe, três irmãs e duas sobrinhas. Por instinto de sobrevivência, se auto-receitou… trabalho. Fechou a barbearia e abriu uma tapeçaria, depois uma marcenaria. Chegou a ensaiar a mania de coisa grande quando fez uma porta para um magnata, uma porta de 2,38 de largura por 2,10 de altura, talhada com imagens do Kama Sutra, pela qual recebeu US$ 85 mil.
Já tinha mais de 60 empregados quando abriu o primeiro restaurante, o Don Carmelo, lá pelos idos de 1965. Cozinhava bem, de tudo um pouco, e queria manter o cardápio original do bairro. Dez anos depois inaugurou o Icarajé, nome floreado para uma cantina. “Era homenagem a um guia espiritual que eu recebia.” Só que o espírito arqueou de novo quando, em 1978, o filho Júnior morreu em casa, aos 18 anos, num acidente com arma, que ninguém sabia de onde veio. Walter se desfez de todo o patrimônio e passou a andar a esmo quando apareceu o doutor indicando a novidade do tratamento. Então comprou a primeira Concheta, cantina em homenagem a uma jornaleira que foi a maior agente de notícias do bairro. “Era contar um segredo pra ela e, dali a dois minutos, meia São Paulo já sabia de tudo.” Depois vieram o Scapriciatello, o Poderoso Chefão, o Atlanta, mais Conchetas, o São José, o Taverna, Bixiga Amore Mio. Nem tudo deu certo porque, corajoso das ação, queria era salvar os que corriam o risco de morrer. Ficou com quatro, dois deles na sua mão, um na do irmão Nicola, outro na da filha, Solange. Aos 72 anos, ele trabalha 18 horas, sobe e desce escada numa ligeireza de menino e exala um humor de quem só respira o melhor do passado. Diz que é coisa do bairro, do distrito, de parte do distrito, sei lá. “Quer saber, minha filha? O Bixiga é um estado de espírito.”

Fonte: Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO 11/9/2006 SUPLEMENTO ALIÁS

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